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Xiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii

  • 19 de abr.
  • 3 min de leitura

Por Norma Holanda Oliveira Bezerra

Ocupante da Cadeira nº 39 da AILA. 

Wesley possuía um dom perigoso: o de observar o mundo e transformá-lo em caricatura. Ele era um bom amigo, daqueles de riso fácil, seus olhos eram como lentes que percebem o detalhe, a falha, o diferente. Conselhos vinham dos pais, mestres, vizinhos amigos — como brisas que tentavam desviar um barco de uma tempestade, mas nosso grupo, embora soubesse o peso das “brincadeiras”, acabava sendo incentivo de Wesley. Nós dizíamos "não faça", mas nossos risos diziam "continue". E assim surgiam os apelidos: Mestre dos Magos, Espírito de Grilo, Sensor... nomes que ecoavam em conversas privadas, um muro invisível entre nós e os outros, que nem sabiam que eram alvos de nossas piadas silenciosas.

O destino trouxe Paulo. Ele vinha de longe, do Sudeste, trazendo o sotaque e o jeito do interior de São Paulo para o coração do Ceará. Quando ele se sentou, o silêncio de Wesley foi absoluto. Era o olhar de um escultor diante da pedra. No intervalo, em nosso grupo, a sentença foi proferida com um sorriso de canto de boca: "Ovo".

Bastou uma palavra para que a identidade de Paulo fosse reduzida a um par de olhos grandes. O grupo riu, uma risada consciente do erro, mas fascinada pela "criatividade" maldosa. O segredo, como era de se esperar, não resistiu à gravidade da maldade. "Lá vem o Ovo!", alguém gritou. E em uma semana, Paulo não era mais o menino que cruzara o país para recomeçar; ele era apenas um objeto de deboche. Mas Paulo... Paulo tinha uma dignidade que nos faltava. Ele tentou o silêncio, tentou a indiferença, mas a alma cansa de ser piada.

Wesley, mestre na arte da esquiva, negou tudo. Convenceu até o diretor de turma com sua máscara de inocência. A gestão escolar interveio e o tema "bullying" abordado em sala, chegou como um espelho desconfortável, o ar ficou pesado.

Pausa por uns dias, mas logo Wesley voltou à ativa, e algo mais doloroso aconteceu. No meio de uma aula de Português, o silêncio foi cortado por um som sibilante: "Xiiiiiiiiiiii... Xiiiiiiiiii..."

A professora, confusa, não entendeu. Paulo, com a voz embargada pela percepção de quem sofre, explicou o que nós, na "brincadeira", recusávamos a ver:

— Professora, a senhora não ouve? A professora sem entender porque não ouviu nenhum aluno falar, disse:  Paulo, o que está acontecendo, não vi nem ouvi.

— Esse "Xiiiiiiiiiiii... Xiiiiiiiiii..." que estão fazendo, é o barulho do ovo fritando. Para o Paulo era o som da sua própria dor sendo consumida pelo nosso deboche. O barulho de fritura era, na verdade, o som da sua identidade sendo desfeita diante de todos nós.

A professora, no entanto, paralisou por um segundo, buscava saída, mas o dano estava exposto.  Olhou para o rosto de Paulo, depois para a turma, que se mantinha em um silêncio culpado. Em um esforço para retomar as rédeas da situação e reverter o quadro, ela buscou uma saída lógica, um refúgio na razão:

— Paulo, meu querido — disse ela com uma voz suave, mas firme — eu entendo a situação, mas creio que você pode estar equivocado. Esse som que você ouve... esse "xiiiiiiiiiii  xiiiiiiiiii” acredito que possa ser apenas silêncio que algum colega está pedindo. Às vezes, o que ouvimos pode ser interpretado apenas com reflexo do que estamos sentindo aqui dentro. (Colocou as mãos no peito e depois na cabeça).

Ela sorriu de forma acolhedora, tentando encerrar o assunto. Foi uma saída diplomática, uma tentativa mas, enquanto ela voltava para a lousa, o silêncio que se seguiu não era o de respeito; era o silêncio pesado de quem sabia que, por trás daquela explicação lógica, a fritura continuava, invisível e cruel, queimando a alma de quem só queria ser chamado pelo próprio nome. A piada do Wesley, alimentada por nossa omissão e cumplicidade, cortava a humanidade de um colega. 

 

Iracema-Ceará, 18.04.2026.

 

 
 
 

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