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Um louvor ao mistério

  • 9 de mai. de 2022
  • 2 min de leitura

Por Vinícius Campelo Pontes Grangeiro Urbano

Ocupante da Cadeira nº 12 da AILA.



Recordo de passagens na minha infância onde o mistério percorria todo um olhar para o mundo. Mistério das ruas, mistérios do céu, mistério do porquê tem gente passando fome, mistério do porquê existem guerras.

A dúvida e a não toda revelação do mundo convidava-me a querer olhar um pouco mais, a querer escutar um pouco mais das estórias e histórias contadas nas calçadas. O mundo era por inteiro as mil e uma noite, e a vida era quem narrava este mistério, sempre deixando um pouco mais, para que se fosse possível sonhar, um mais para que se fosse possível desejar logo o amanhã e seu contínuo.

Mas então o que houve com o mistério? Bom, o mistério está sendo engolido pelas lutas das técnicas da sociedade da transparência, que incide sobre o humano e seus horizontes narrativos, retirando todo atributo do fogo misterioso, todo seu olhar de criança curiosa.

Tudo está posto, a carne da vida está posta na mesa, dilacerada, fria e sem temperos. Não há gosto. Tudo é respondível, tudo é e ponto. Não existem lacunas, não existem espaços. A vida parece ser comprime na ilusão do saber técnico.

As narrativas de vida, de sofrimento de vida, dão espaço agora para o cru da formulação técnica de um diagnóstico. O sofrimento, antes singular, antes narrado sobre uma história singular, agora é o aporte de um sofrimento universal. E com isso se perde, não só mistério de saber de si, mas da própria vida.

É necessário que joguemos o véu sobre o mundo, que deixemos espaço para saber um pouco mais, um dizer um pouco mais, sem conclusões. É preciso se louvar o mistério. É preciso fazer nascer a voz da criança que por curiosa, pergunta, olha e sonha.

 
 
 

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