Sobre o eterno e o paraíso
- ailacultatende
- 5 de jun. de 2022
- 2 min de leitura
Por Vinícius Campelo Pontes Grangeiro Urbano
Ocupante da Cadeira nº 12 da AILA.

O paraíso, como uma ideia cristã, é um paraíso digno para se viver depois, se viver no a posteriori, é o paraíso apenas para os justos, para os que seguem a risca a teologia desse pensamento. Mas afinal é esse mesmo o paraíso? Bom, como dito, esse lugar é um recanto sem resposta. Por fazer abrigo nos braços do mistério da morte, as correntes de pensamento que dizem sobre esse reino de paz ou de caos após o aqui vivido, podem ser entendidas como certo e não certo. Afinal, a falta de exatidão para possíveis imortalidades da alma, faz espaço para se pensar esse depois. Mas este caminho de pensamento que faço até aqui com vocês é para pensar um outro paraíso, um mais próximo, um mais da carne. Os românticos dirão que o paraíso é aqui nos braços de quem amamos, outros dirão que o paraíso é a proporção da experiência que se tece com o mundo. Mas há um ponto onde se pode dizer de um paraíso que se junta ao agora e ao mistério feito mediante o morrer. Ser transpassado pela linguagem nos permite abrir um furo nos registros do mundo. A linguagem nos permite eternizar os momentos e canalizá-los nas descrições dos seus afetos, que embora sejam mutáveis, ainda se canalizam pela palavra e nela fazem surgir um ponto, seja o amor, seja a raiva, o ódio. A linguagem se faz como registro de mundo. É a primeira máquina fotográfica da existência. Ela eterniza juntamente com a memória os momentos vividos e os sujeitos fazem estes depósitos onde lhes é possível. Assim, viver no paraíso e na eternidade após a morte, é se resignar nas memórias e palavras dos outros que nos cercam. Tal qual uma planta que espalha suas sementes para se manter viva, nós humanos, semeamos momentos vividos com os outros e neles permitimos o abrochar de narrativas, que fazem pequenas eternidades para além de nós mesmos. O vida pós morte é paraíso ou não, dependendo do que podemos deixar para os vivos em forma de lembrança. Longe de mistérios de ideias abstratas, o mistério do encontro factual da vida é o toque que fazemos no mundo e nos outros. Assim, o paraíso são as palavras de amor ditas quando não há mais ar passando entre alvéolos pulmonares. Paraísos são as boas lembranças do tempo que passamos neste mundo. São paraísos impressos nos corações dos outros, são as batidas alheias que me imortalizam no momento de minha morte, e constrói o meu cenário de descanso.












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