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Multiplicar o coração no todo amazônico

  • 9 de set. de 2025
  • 3 min de leitura

Por Vinícius Campelo Pontes Grangeiro Urbano

Ocupante da Cadeira nº 12 da AILA.


Desde a morte da tia Irizete Urbano que pensava em nunca conhecer estas terras ao norte. A perda de uma das pilastras que ajudam toda uma família a se manter firme produz muito desamparo, até para aqueles e aquelas que talvez não se apoiassem tanto nela. Mas os percursos e desvios de uma vida, que arrastam todo um plano de certezas, me fizeram topar com meu corpo nessa imensidão verde-água que se estende ao nome Amazônia e sua capital, Manaus.

O convite afetivo para falar sobre o que venho desenvolvendo como campo de pesquisa, e a possibilidade de me encontrar com familiares e uma amiga, me criaram desvios no campo das ideias. Afinal, é ao corpo e aos afetos que venho seguindo e não mais às razões sem motivo de um mundo inexistente.

A duração da vida amazônica se produz de forma profunda. As árvores, que praticamente não dançam, fazem aceno a um regime de tempo lento. O relógio descompassado faz brotar uma outra sensação junta ao mundo. A sonoridade das vidas consegue competir e até ganhar das máquinas. Quase tudo pede para que o corpo se perceba onde está. A floresta é indutora de pressão e calor, deixando também em águas o corpo que transpira, transpira e só então respira. Em intervalos de momento, a cada gota que sai e vaporiza ao colidir com as ondas solares, faz com que se deixe parte do corpo no todo amazônico. As águas amazônicas então ficam no corpo, assim como as águas do corpo ficam com a floresta. Águas do suor das aventuras, águas do amor, águas das lágrimas ao lembrar da tia. Mas também, águas dos rios que invadem, da floresta que toca, da família que se junta, fazendo confundir as lembranças de cada um e um certo luto profundo, na tentativa de fazer durar esse encontro.

O tempo colapsado, o tempo que não é o da máquina capital. As noites que vão vibrando na sorte de um cenário que se mistura em sombras e luz, fazendo pairar no centro da capital um certo mistério do passado e do presente. As vidas da floresta que insistem em estar presente. As águas dos rios, que parecem fazer dutos de veias do coração que pulsam a todo instante. É fácil perceber os motivos da minha amiga Josiane Medeiros em se multiplicar nas palavras. A vida lá insiste em não se apartar, em não se sedentarizar e não se conformar em uma única forma. A vida nômade como as águas, múltipla como a biodiversidade, dá passagem para muita coisa, inclusive para se deparar com um luto que durou em silêncio até se fundir com a floresta e com a família. Sensibilidade que ressignifica um território como possível de ir, e uma lacuna que se preenche e transborda nos olhos. Agora sei por que a tia se fez forte; afinal, existe uma certa força nos laços com o território amazônico que ela, uma mulher negra e sertaneja, conseguiu criar. A força de alcançar os seus, mesmo que à distância, pois, como diz a minha amiga Josiane Medeiros, a floresta se espalha pelo Brasil em seus “rios voadores”.

Agora, em terras litorâneas, tráfego sobre as misturas dos cenários que ficam no corpo biológico e simbólico. Sob efeitos enfeitiçados de toda uma mística de sensações que vão pedindo passagem. Os rios voadores vêm até o Rio Grande do Norte e chegam a Iracema/CE em forma de palavras. Confluir e enlanguescer nosso fluxo de afeto e laços, eis um bom caminho.

 
 
 

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