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Lygia Fagundes Telles: ficcionista dos desencontros

  • ailacultatende
  • 10 de abr. de 2022
  • 7 min de leitura

Eu não quero ser compreendida, eu não faço questão. O amor me parece importante. O amor, o amor, a palavra eu acho é insubstituível, o amor. (Lygia Fagundes Telles).


A escritora Lygia Fagundes Telles nasceu em São Paulo, em 1923, e se despediu no dia 03 de abril de 2022, no mesmo mês que completaria 99 anos. Uma mulher que tinha lucidez sobre o poder feminino, Lygia cursou Direito na tradicional Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, em São Paulo, além de ter cursado, também, Educação Física, na Escola Superior de Educação Física - cursos reconhecidamente masculinos para o Brasil machista dos anos de 1940. Ela começa a escrever com apenas 15 anos de idade, quando publica Porão e sobrado, em 1938, obra que preferiu excluir de seu espólio literário, por julgá-la muito imatura; e, em 1944, publica Praia viva, considerado seu livro de estreia. Nessa obra, a escritora traceja o que viria a se consolidar como seu estilo: uma literatura com tom introspectivo que vai acompanhá-la por toda sua carreira. Ainda em Praia viva aparecem temáticas recorrentes na obra mais madura da escritora, como, por exemplo: preocupação de ordem social e psicológica, loucura, morte, rejeição, exclusão e, sobretudo, amor. Mas não nos iludamos, o amor que Lygia Fagundes Telles traz para o seu texto é o amor Eros, o insaciável; portanto, sempre em busca de realização.

Outra marca que já vai ser impressa nos primeiros escritos de Lygia são os temas insólitos e os finais ambíguos. Para Alfredo Bosi, escritores do porte de Lygia Fagundes Telles escavam “os conflitos do homem em sociedade, cobrindo com seus contos e romances-de-personagem a gama de sentimentos que a vida moderna suscita no âmago da pessoa” (BOSI, 1994, p. 388). Bosi ainda classifica a literatura romanesca de Telles como sendo “[...] de tensão interiorizada, ou seja, o herói não se dispõe a enfrentar a antinomia eu/mundo pela ação: evade-se, subjetivando o conflito” (BOSI, 1994, p. 392).

Diante do que a crítica aponta, é possível afirmar que a obra de Lygia Fagundes Telles é estudada pela qualidade estética, bem como por sua importância no cenário literário brasileiro. Desse modo, em seus textos, podem-se observar várias formas de amor, de frustração amorosa, encontro e desencontro, além de desfechos amorosos nada comuns. Observam-se, especialmente, as relações amorosas como suporte de autoconhecimento humano. No prefácio da coletânea de contos Oito contos de amor, Lygia faz uma espécie de mea-culpa ao justificar por que trata das questões relativas ao homem de forma “pessimista”: “Quase peço desculpas por não ser mais otimista quando trato da crueldade. Do sofrimento. Do medo. Mas o amor (e desamor) não está sempre presente? Recorro ao humor que é a nossa salvação, ninguém é perfeito – e a loucura?” (2005, p.7). Para o leitor que se debruça sobre os textos da escritora fica evidente que ela transita de forma tranquila entre um gênero literário e outro, mas sem perder sua veia intimista e sua dedicação a textos cujas personagens questionam o amor e seus desdobramentos como os encontros, os desencontros, o ciúme, e a solidão.

Embora tenha publicado três livros de contos, em 1938, 1944 e 1949, Lygia Fagundes Telles só vai se firmar, de fato, como escritora em 1954, quando publica o romance Ciranda de pedra, primeiro livro considerado, por ela e pela crítica, como maduro. A partir dessa publicação, Lygia não para mais de escrever, bem como ser premiada por suas obras, culminando por receber o prêmio Camões em 2005, maior consagração de um escritor de Língua Portuguesa, pelo conjunto da obra.

Entre suas obras estão contos, crônicas, cartas, fragmentos, roteiros de cinema e romances. Em ordem cronológica: Contos: Praia viva, 1944; O cacto vermelho, 1949; Histórias do desencontro, 1958 (prêmio Instituto Nacional do livro); Histórias escolhidas, 1964; O jardim selvagem, 1965; Antes do baile verde, 1970; Seminário dos ratos, 1977 (Premiado pelo PEN Clube do Brasil); Filhos pródigos, 1978 (reeditado em 1991, como A estrutura da bolha de sabão); A disciplina do amor, 1980 (prêmios Jabuti e o prêmio Associação Paulista de Críticos de Arte); Mistérios, 1981; A noite escura e mais eu, 1995 (prêmios Arthur Azevedo da Biblioteca Nacional, Jabuti e o prêmio Aplub de literatura); Oito contos de amor, 1996; Invenção e Memória, 2000 (Prêmios Jabuti, Associação Paulista de Críticos de Arte e o Golfinho de Ouro); Durante aquele estranho chá: perdidos e achados, 2002; Meus contos preferidos, 2004; Histórias de mistério, 2004; Meus contos esquecidos, 2005; Conspiração de Nuvens, 2007 (Prêmio Associação Paulista de Críticos de Arte); Crônicas: Passaporte para a China, 2011; Romances: Ciranda de pedra, 1954; Verão no aquário, 1963 (Prêmio Jabuti); As meninas, 1973 (Prêmios Coelho Neto da ABL, Jabuti e “Ficção” da Associação Paulista de críticos de arte); As horas nuas, 1989 (Prêmio Pedro Nava de melhor livro do ano). Em 1982, Lygia Fagundes Telles é eleita para a Academia Paulista de Letras e desde 1987 ocupava a cadeira número 16 na Academia Brasileira de Letras, até sua morte em 03 de abril desse ano de 2022.

Em seu romance de estreia, e também o mais conhecido, Ciranda de Pedra, a escritora trata de assuntos tabus no Brasil dos anos de 1950, como homossexualismo feminino, impotência sexual, separação entre casais, além do tema da loucura que a escritora considera muito instigante, chegando a afirmar em entrevista (Entrevista para o programa Roda Vida, TV Cultura, 1996. http://tvcultura.cmais.com.br/lygia/roda-viva-lygia-fagundes-telles) que, mesmo que este tema não apareça exposto em sua obra, ele está lá, velado em algum lugar. E completa: “A temática me persegue de um certo modo. [...]. Às vezes até usam máscaras, são temas que às vezes mascaram para não ficarem repetitivos, mas você levanta a máscara e está lá o tema. [...]. Então me fascina sim a loucura” (1996).

Romance com personagens instigantes e ricos em detalhes psicológicos, Ciranda de pedra (Vale registrar que o romance Ciranda de Pedra, além de várias reedições literárias, já teve duas adaptações para telenovelas, na Rede Globo de televisão) traz, de forma preponderante, a loucura e o desencontro amoroso, personificados pela personagem Virgínia, uma criança fruto de um relacionamento extraconjugal, que passa a vida em busca de se conhecer. A narrativa mostra que Virgínia torna-se uma moça complicada e problemática, ama em silêncio e abdica desse amor para um encontro consigo mesma.

Em 1963, Lygia publica Verão no aquário, seu segundo romance, que apresenta, mais uma vez, os temas da loucura e os amores desencontrados. A narrativa é protagonizada pela personagem Raiza, que se dedica a amores fugazes em um processo de experimentação doloroso, já que a todo tempo ela se relaciona com homens comprometidos. No referido romance, a narradora personagem expõe, ainda, a história de sua família conturbada e desestruturada, com um passado obscuro e um presente de ausências. Tudo isso envolto em uma atmosfera onírica, combinada com devaneios e desregramentos etílicos, outra temática recorrente nas obras de Lygia.

O terceiro romance da escritora, As meninas, foi escrito em 1973 e torna-se uma obra de grande sucesso, sendo adaptada para o cinema com nome homônimo, por Emiliano Ribeiro, em 1995. O livro tem como enredo o cotidiano de três moças de comportamento e condição social diferentes, que moram longe da família. No entanto, a Ditadura Militar no Brasil também aparece como tema da obra, reforçando a afirmativa da escritora que declara em várias entrevistas que o escritor deve estar atento aos acontecimentos sociais e políticos de seu tempo. As meninas, portanto, é uma obra de grande importância literária, mas que não fica aquém da situação social na qual o Brasil se encontrava. Além disso, nesse terceiro romance de Lygia, aparece de novo a relação amorosa problemática: amores não correspondidos, amores impossíveis de realização por impossibilidades várias como uma das partes já serem comprometidas. Em suma, o romance não apresenta nenhum casal que tenha uma vida amorosa calma, ou feliz.

Por fim, em 1989 aparece As horas nuas, o último romance publicado pela escritora. Nesse livro estão reunidos todos os temas recorrentes em seus outros romances, como a loucura, as implicações sociais como a Ditadura Militar no Brasil, bem como a temática da solidão, decorrente de amores frustrados, e a tentativa desesperada de uma mulher para resgatar seu grande amor. A protagonista Rosa Ambrósio se dedica a viver de lembranças, expectativas e desejos frustrados, enquanto, em estado de letargia, espera a verdadeira e ilusória realização amorosa, que ela própria, em momentos de lucidez e ironia, se conscientiza de que não existe. Assim sendo, pode-se afirmar que todos os quatro romances de Lygia Fagundes Telles trazem temas recorrentes que buscam compreender as vicissitudes da complexa vida humana, com destaque para a questão do amor.

Importante ressaltar, ainda, que a escritora sempre se preocupou com seus leitores no que diz respeito à importância da obra literária na formação humana, sem que, necessariamente, sua obra fosse compreendida nesse sentido. Sendo assim, sobre o ofício de escrever ela diz: “O escritor pensa em ambiguidade, o escritor contorna, ele também não abre muito o jogo, ele joga, o leitor fica cúmplice, fica um conivente, como um criminoso que vai cometer o seu crime e que precisa então de toda aquela circunstância que vai ajudá-lo a fazer a coisa o mais perfeitamente possível.” (Entrevista para o programa Roda Vida, TV Cultura, 1996.)

É importante frisar que Lygia se dedica muito mais a escrever contos do que romance, contudo, é fundamental ressaltar que em seus romances ela consegue condensar toda a temática desenvolvida nos contos, como as inquietações e os deslocamentos inerentes ao homem, portanto, refletidos naturalmente em suas histórias. Outra recorrência em suas narrativas é a fugacidade das histórias de amor: elas nunca se consolidam com final feliz. No entanto, podemos afirmar que dentro desse universo conturbado e de vazios, caros às personagens da escritora, elas encontram uma harmonia. Há um sinal de que mesmo dentro dos desajustes sociais as personagens criadas por Lygia empreitam suas travessias dispostas a mergulhar em seus infernos particulares para renascerem. Os conflitos internos refletem o conflito social; assim, suas personagens não se adaptam ao que lhes é imposto, elas buscam aprimoramento para viver as fases pelas quais passam. Com isso, registramos também a evolução ou a formação de um leitor disposto a ampliar seu olhar e sua visão para além das páginas desses romances.


Fragmento retirado do livro da autora, Maria Aparecida da Costa.

A paz tensa da chama fugaz: a configuração do amor no romance contemporâneo - Lygia Fagundes Telles e Lídia Jorge. Natal: ADUFRN, 2014.






Sobre a autora: Maria Aparecida da Costa.

Licenciada em Letras, Língua Portuguesa, pela Universidade Federal de Ouro Preto; Bacharel em Estudos Literários pela Universidade Federal de Ouro Preto; Mestre em Letras pela Universidade Federal da Paraíba e Doutora em Literatura Comparada pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte, com Doutorado sanduíche na Universidade de Coimbra - Portugal. Pós-doutorado na Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Professora Adjunto IV na Universidade do Estado do Rio Grande do Norte e Docente Permanente do Programa de Pós-Graduação em Letras - PPGL - UERN.

 
 
 

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