Lampião, após derrota em Mossoró, pernoita em Iracema
- 17 de abr. de 2022
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O assalto desse bandido à Mossoró em 13 de junho de 1927 foi a maior derrota que ele sofreu em toda sua trajetória de crimes que já vinha cometendo há mais de uma década, principalmente nos estados de Pernambuco e Paraíba.
No ano de 1926, anterior portanto, à invasão de Mossoró, ele visitara o Padre Cícero em Juazeiro. O objetivo da visita era receber armas e uma falsa patente de Capitão do Exército, prometida pelo deputado federal Floro Bartolomeu, aliado e amigo do Padre Cícero. As armas seriam usadas para combater a coluna Prestes. Chegando à Juazeiro, a entrega da patente foi cumprida por um funcionário Federal e chefe dos Correios pois Dr. Floro havia viajado doente para o sul do País. Padre Cícero o aconselhou a largar essa vida criminosa. Como bom devoto, prometeu ao padre não cometer crimes no território cearense. Entretanto, continuou na onda de crimes e assaltos em Pernambuco e Paraíba pelo restante do ano de 1926.
O cangaceiro lampião é hoje uma figura emblemática. Muitos o consideram um mito, outros um herói. Na verdade esses valores fazem parte do imaginário popular, invenção sem cabimento. Ele foi um bandido frio, violento, arrogante e esperto até demais. Nas cidades vitimadas por seus ataques, a população presenciou cenas de terror inimagináveis.
Em 1927, planejou atacar o Rio Grande do Norte, cujo alvo principal seria a cidade de Mossoró, a mais rica e progressista cidade do oeste potiguar. No dia 10 de junho daquele ano iniciou a sua marcha em direção ao Rio Grande do Norte entrando pela fronteira da Paraíba, na cidade de Luís Gomes.
Daí em diante, percorreu acompanhado do seu bando, inúmeras cidades, povoados e sítios, saqueando com mortes, roubos e fazendo reféns, em mais de vinte localidades, ocasiões em que exigia das famílias vultosas quantias como resgates. Caso a família não entregasse o pagamento do resgate, a vítima seguia com o bando até chegar o dinheiro solicitado. Assim aconteceu com Dona Maria José, uma idosa de 72 anos, única mulher que acompanhou o bando a cavalo durante toda a trajetória, pois Lampião não permitia mulheres no bando. Maria Bonita só veio integrar o bando no início da década de 1930.
Ao se aproximarem de Mossoró, precisamente no dia 13 de junho, Lampião resolveu enviar carta ao prefeito Rodolfo Fernandes, solicitando a importância de 400 contos de réis para não atacar a cidade, pedido esse que não foi atendido.
O prefeito já havia planejado a defesa reunindo as principais lideranças e evacuando de trem, para Areia Branca, mulheres, crianças e idosos. Muitos fugiram em seus próprios veículos. A cidade transformou-se num arsenal de armamento para o combate.
Em pontos estratégicos foram colocados fardos de algodão cedidos pela firma Tertuliano Fernandes, formando as chamadas trincheiras com homens armados. Compondo uma dessas trincheiras, estava meu pai, João Almino de Souza o qual era funcionário da empresa.
Outros resistentes se agruparam nas torres das Igrejas de São Vicente e de Santa Luzia, no telhado da casa do prefeito e em outras residências. Armados, aguardavam a hora do ataque. Uma segunda carta foi enviada pelo bandido ao prefeito, renovando o pedido da primeira carta.
Fiel ao propósito de defender a cidade, o prefeito Rodolfo Fernandes, em sua última resposta ao bandido, afirmou que não havia esse dinheiro, e que a cidade estava pronta para a resistência.

Às 16 horas, surgiram os cangaceiros em duas frentes principais: uma em direção ao prédio da estrada de ferro e outra, com maior número de homens, em direção à igreja de São Vicente e à casa do prefeito, que ficava ao lado do templo religioso. Em ambas as frentes eles encontraram forte resistência. O primeiro a morrer foi o cangaceiro Colchete. Face a resistência bem organizada, Lampião recuou com o seu bando, indo montar nos cavalos que tinham deixado fora da cidade na região chamada Saco. Vários cangaceiros ficaram feridos, dentre eles Jararaca, que não conseguiu fugir com o bando e foi preso no dia seguinte, mas poucos dias depois os policiais o decapitaram. Outro que não conseguiu sobreviver foi o Menino de Ouro, que faleceu na fuga antes de chegar à fazenda Veneza, já próxima à divisa com o Ceará.
Sofrera uma derrota espetacular. Ao amanhecer do dia 14 de junho, o grupo que restou entrou na fazenda Veneza, onde assaltaram e roubaram quarenta contos de réis do gerente, senhor Childerico Fernandes de Souza, o qual com sua esposa Bebela e filhos menores sofreram agressões verbais. Mataram gado e aves para o almoço e repousaram, para no mesmo dia, seguir rumo ao Ceará, onde não cometeriam assaltos.
Chegando a Limoeiro do Norte, foram bem recebidos, jantaram, tiraram fotos e repousaram. De manhã cedo, às 6 horas do dia 15, saíram em nova caminhada. Passando por Tabuleiro do Norte, repousaram na fazenda Armador, do senhor Quincola.
Às 15 horas do mesmo dia, chegaram na fazenda Arara, do senhor José Roque, no distrito de Iracema, que na época pertencia ao município de Pereiro. O dono da casa pediu ao cangaceiro Marcilon garantia para a família, no que foi atendido com uma resposta de Lampião, esclarecendo que dali só queria comida para seu grupo. Entretanto, exigiu do Senhor José Roque que enviasse um portador a Pereiro para falar com o delegado Hildebrando Mourão, dizendo que o escolhido teria que ser um filho ou genro dele.
Foi apresentado então o genro Sinésio Magalhães para essa missão. Lampião disse ao mensageiro que falasse com Hildebrando para que mandasse o dinheiro do resgate e, se não viesse esse dinheiro, ele mesmo, Lampião, iria buscar. Na casa de José Roque, o grupo foi bem alimentado, tomou café e coalhada e foi dormir em plena mata, na própria fazenda, com cerca de 80 homens e apenas uma mulher, a refém Dona Maria José.
No dia seguinte, 16 de junho, em torno de 5 horas da manhã, o grupo continuou a cavalgada, acompanhado de um guia por caminhos e veredas. Foram acampar no lugar Saco do Garcia, onde foi abatido um boi que serviu de alimento e do qual fizeram bastante carne de sol. Alguns reféns foram soltos com a chegada do dinheiro do resgate de Joaquim Moreira e de Antônio Gurgel e, por último, com o dinheiro do resgate de Dona Maria José.
Muitos cangaceiros, feridos na perseguição pela polícia, morreram na cavalgada e outros abandonaram o grupo. Já próximo à Serra da Micaela, o bando estava reduzido ao número de aproximadamente 50 homens, que continuaram na fuga. Estes homens entraram na Paraíba e Pernambuco, assaltando pequenos povoados.
Com outras mortes nos confrontos com os policiais e deserções, o grupo foi reduzido para cerca de 20 homens, quando resolveram penetrar na Bahia, no Raso da Catarina, uma região inóspita, onde permaneceram escondidos por algum tempo. Triste derrota de uma marcha iniciada com 100 homens. Entretanto, pouco tempo depois, voltaram a atacar outras cidades do sertão nordestino, agregando novos fugitivos da Justiça, formando pequenos bandos e continuando com a onda de assaltos e crimes. Somente em 1938, Lampião com reduzido grupo de cangaceiros, foram mortos, em uma emboscada da Policia no Estado de Sergipe. Foi o fim de Lampião e seu bando.
Por Pedro Almino de Queiroz e Souza.
Médico, escritor e membro da AILA.
Fontes de pesquisa: Raul Fernandes, “A Marcha de Lampião”, Antônio Gurgel, “Nas Garras de Lampião, Diário”.

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