Ex-trangeiridade
- ailacultatende
- 16 de mai. de 2022
- 2 min de leitura
Por Vinícius Campelo Pontes Grangeiro Urbano
Ocupante da Cadeira nº 12 da AILA.

As sensações das mudanças das coisas, o embrulho e o estranhamento com as relações. Os rostos velhos, em uma composição de novo. Isto demarca por vezes a ex-trangeiridade de se estar no mundo em eterna mudança.
Ex-trageiro justamente sobre a divisão do prefixo, justo para demarcar o fora que se compõe com o que inscreve neste modo de estar e ser: for; afastado. As notas do mundo que vão tocando, tocando, até que as notas conhecidas morram e daí surja as novas notas, os novos arranjos, “e qual escutar”* uma música pela primeira vez, é ficar sobre o risco do não se harmonizar com que se escuta, do querer que pare, ou pedir a música antiga, que não pode mais tocar.
Ex-trangeiro de si mesmo ao se deparar com um corpo que envelhece, com os fios que perdem sua cor vívida e ganham o prata frio do tempo. Alquimia sem retorno da matéria que muda, das relações que mudam, do gosto pelo mundo que muda.
Dar de conta disso é as vezes se deparar com o amargo. Pessoas queridas que aquecem memórias vivas, já não são mais as mesmas. O horizonte que um dia foi o mais belo, agora é apenas mais um horizonte. O corpo que aguentava horas de festa, agora só quer descansar. O tempo reduz as pessoas mais fortes ao frágil.
Não é fácil se perceber ex-trangeiro, porque não é fácil se deparar com um mundo em mudança, com pessoas em mudança, com um "eu" em mudança. Não é fácil, porque é difícil estar "fora", estar "ex-trangeiro", a necessidade de se afinar e estreitar diante de uma ideia de eterno conforto nos retira do real desta condição.
É difícil se perceber, se escutar, se deparar com as paredes que mofam sobre o orvalho das horas que passam, mas é preciso, é preciso constatar o finito das coisas, da vida, é pôr sobre as mãos a responsabilidade no viver. É aceitar que haverá relações desfeitas, e sobre este mesmo solo do que se foi, surgirá novas e talvez, mais intensas relações.
Aceitar a morte e se aproximar um pouco mais dos vivos. Aceitar a mudança do corpo e ir tecendo novas intimidades com ele, enquanto ainda abriga suspiros. Aceitar o mundo caótico e extrair dele outra coisa como poesia.
Aceitar um Ex-trageiridade de ontem, de hoje e de amanhã, porque talvez viver seja ser ex-trangeiro em sua demasiada parte. Porém, ex-trangeiro de si não é só o desalento do desencontro, mas a possibilidade de um novo conhecer de si e do mundo.
*Artifício linguístico inspirado em Fernando Pessoa.












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