Entre a navalha e a traição
- 5 de abr.
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Por Carlos Holanda Oliveira.

Juvêncio não era um homem de grandes ambições, mas tinha uma grande tesoura. E com ela, aparava não só cabelos, mas também histórias, fiapos de conversa e, vez ou outra, a paciência de algum cliente mais falante. Sua barbearia ficava no térreo do prédio onde morava com a esposa, no primeiro andar. Vida simples, dessas que cabem numa rede armada na varanda e num café passado na hora.
Diziam que ele tinha vindo de longe, de outro estado. Nunca confirmava, nunca negava. Quando perguntavam, ele olhava pro céu como quem busca a resposta nas nuvens, coçava o queixo e dizia algo como “rapaz, o mundo é grande”. E pronto. O assunto morria ali, bem penteado.
Juvêncio era desses homens que gostavam de amenidades. Conversava sobre o calor, sobre a chuva que não vinha, sobre o preço do feijão, mas desviava de política como quem desvia de buraco na calçada. “Isso aí dá briga”, dizia, e já puxava outro assunto.
Foi nessa rotina pacata que apareceu, ao lado da barbearia, uma família meio desarrumada da vida. Chegaram, se instalaram e trouxeram junto uma cachorrinha pequena, de pelo escuro e olhar desconfiado. A coitada parecia mais organizada que os donos.
Mas o tempo passou e, assim como vieram, eles foram. Sumiram. Evaporaram. E deixaram para trás a cachorrinha.
Nos primeiros dias, ela latiu como quem chama alguém que nunca mais ia responder. Depois passou a se esconder num prédio em construção bem em frente à barbearia. Latia para qualquer um que se aproximasse, como se dissesse “não confio em mais ninguém, não”.
Juvêncio, que de durão só tinha a navalha, ficou mexido com aquilo. Começou a deixar comida, água. Outros vizinhos ajudavam também, mas era ele quem tinha a paciência de chegar mais perto, falar baixo, conquistar a confiança da pequena criatura.
Com o tempo, a cachorrinha passou a aceitar sua presença. Deixava ele chegar, dar banho, até conversar com ela, coisa que Juvêncio fazia com a maior naturalidade, como se ela fosse cliente antiga.
“E aí, minha filha, vai só aparar ou quer hidratação também?”
A vida seguiu, e a cachorrinha, já adaptada, acabou ficando prenha. Teve um filhote bonito que alguém logo levou, provavelmente com mais organização que a antiga família.
Juvêncio já considerava a cadelinha praticamente da casa. Não subia pro primeiro andar, mas era como se morasse ali na calçada, sob sua supervisão.
Até que um dia, ele resolveu levá-la ao mercantil da esquina. Foi todo orgulhoso, como quem leva um troféu ambulante. A cachorrinha ia ao lado, tranquila, como quem encontrou finalmente seu lugar no mundo.
E foi aí que o mundo resolveu aprontar.
Do nada, surge a antiga dona.
A cachorrinha congelou. Olhou. Reconheceu. E, sem cerimônia, foi direto para ela, abanando o rabo com entusiasmo de reencontro de novela.
Juvêncio ficou parado, segurando a guia, com a expressão de quem acaba de descobrir que foi traído por um ser de quatro patas e memória seletiva.
Chamou.
Nada.
Assobiou.
Nada.
A cachorrinha nem olhou para trás.
Juvêncio respirou fundo, ajeitou a postura, foi até ela com aquele ar sério que só aparece em situações importantes. E então, num misto de indignação e orgulho ferido, deu umas leves chineladas, mais simbólicas que eficazes, e soltou:
“Isso aqui é pra você aprender e não esquecer de quem é que realmente cuida de você!”
A cachorrinha continuou abanando o rabo. Mas agora para a outra.
Juvêncio voltou para a barbearia em silêncio. Sentou na cadeira, olhou pro espelho e depois pro céu, como sempre fazia.
Dessa vez, porém, parecia procurar uma resposta diferente.
Talvez tenha encontrado. Talvez não.
Mas desde então, quando alguém fala de fidelidade, ele só dá um sorriso meio torto e muda de assunto:
“E esse calor, hein?”

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