As flechas enterradas
- ailacultatende
- 16 de jun. de 2022
- 2 min de leitura
Por Vinícius Campelo Pontes Grangeiro Urbano
Ocupante da Cadeira nº 12 da AILA.

Quando criança e atenta em uma ideia de mundo ofertada pelas televisões, sempre tive um certo desejo de poder encontrar marcas do passado de guerreiros medievais. Ter a sorte de cruzar a esquina e me deparar com uma espada cintilante, ou encontrar uma peça ancestral de armadura no meio das coisas escondidas pelos meus avós. Passei muito tempo com esse ensejo, mal percebendo que era latino-americano, mal percebendo que eram estes os objetos de opressão dos meus verdadeiros ancestrais. Entre o desgosto que vamos criando por não entender ao certo o nosso lugar no mundo, devido uma série de maniqueísmos, fui me deparando com as minhas reflexões e entendo um pouco mais. “As Veias Abertas da América Latina”, livro de Eduardo Galeano, me mostrou onde há o meu sangue e como ele ainda sangra e escorre diante dessa terra. Sangue que ainda enfrenta os mesmos tolos, que assim como eu, na inocência de criança, mas eles na burrice de adultos, que se entendem como cavaleiros medievais e ainda buscam as espadas e escuros soterrados no imaginário de América Latina. Mas não. É necessário resistir, e redescobrir de fato de qual lado se encontram, a qual lado pertence a raiz ancestral. Por isso, a morte de Bruno e Dom dói tanto, porque existem neles esse reconhecimento do saber olhar para um povo ancestral de latino-américa. Mesmo para Dom, verdadeiro herdeiro da espada, soube largá-la e vir para a magia dos nossos povos. Hoje entendo, de maneira lúcida, que não são as armas medievais que quero encontrar, não quero malhas de aço, machados, carabinas, quero encontrar as pontas de flechas enterradas, as pontas de flechas da resistência que dispararam contra aqueles e aquelas que devoraram a terra e a vida, com suas bocas malditas de ódio e sangue. É nas pontas de flechas, as palavras quase esquecidas, e o olhar mágico, que me reencontro com minha ancestralidade de latino-americano. Este é o movimento de se encontrar em um mundo, de saber sobre minha história e conhecer a quem devo depositar a minha força de luta. De peito aberto, punho estendido e com sonhos de um dia ver América Latina mais dela, mais viva, que luto, que canto, e que afirmo: "Sim, eu sou latino-americano".












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