Aquele ou aquela que usa dos olhos apenas para ver, está cego/cega
- ailacultatende
- 8 de jan. de 2023
- 2 min de leitura
Por Vinícius Campelo Pontes Grangeiro Urbano
Ocupante da Cadeira nº 12 da AILA.

Aquele ou aquela que usa dos olhos apenas para ver, está cego/cega. Afirmar tal frase parece apontar para uma loucura de quem a exclama. Afinal, os olhos nos dão o sentindo da visão e disso temos como saber desde o ensino fundamental.
Foi nos ditado, de maneira enfática sobre os cinco sentidos e suas disposições. Cabendo a cada um executar aquilo ao qual a sociedade e sua ciência vêm demarcando tão explicitamente. E de fato, existe aí, no lugar do dispositivo do olhar, como um captar de imagens, que revela uma verdade, mas não uma toda.
A visão, assim como os demais sentidos, nunca executaram apenas o seu definir biológico. Reduzir a imensidão da experiência humana, apenas ao seu condensar mecânico, é retirar do humano aquilo que lhe é mais humano, ou seja, a própria linguagem.
A linguagem é o que nos encarna e nos coloca no lugar da humanidade. É ela que permite o elaborar de mundo, dando nome às coisas, dando dizeres sobre a vida e sobre nós mesmos. Estar nela, na linguagem, esse lugar das formações culturais e íntimas, é fazermos caminho para compreendermos as leis, para trilhar saídas da angústia ou arriscar ao dizer sobre o amor. A linguagem é a casa do ser, como nos lembra o filósofo alemão Heidegger.
Por isto que o olhar nunca é apenas um captar de imagens, mas também, um captar de palavras no caderno da alma. Olhar é visualizar um mundo em falas, sinalizar ao lado de uma gramática de mundo.
Assim, o olhar é também um escutar o mundo em sua eterna poética de acontecimentos. Os olhos que escutam o mundo são os olhos que enxergam este de fato. Olhos infantis que veem as nuvens e as escuta em suas imagens em fluxos. Olhos que se apreendem ao pôr do sol e contemplam a escuta do mistério das cores e da despedida das luzes celestes. Olhos que veem o mundo e escutam seus acontecimentos, na vastidão de sua complexidade.
É preciso recuperar a visão-escutativa do mundo. A visão que mira a poesia entre as pedras, a visão humana que faz a vida ir além das meras maquinarias biológicas tão fortemente impostas goela a baixo. A visão-escutativa das coisas é a provocadora de rupturas na prosa tão aclamada em nossos tempos, que tenta reduzir a vida a meros aspectos crus de acontecimentos, a uma mera maquina, como se a existência se acomodasse a redes neuroquímicas.
A visão-escutativa é a poética de uma vida, que permite um mergulho no belo dos encontros, que permite compor de histórias os lugares, as pessoas, e a nós mesmos. Seguir rumo a este lugar, é ver no céu estrelado as pequenas luzes do infinito.
Sair de uma visão colonizada e disposta a enxergar apenas sobre as luzes do dia, apenas sobre a cegueira positiva e sem mistérios. A visão-escutativa é uma visão que enxerga mesmo no escuro, uma visão noturna mesmo quando Sol incendia no horizonte. Uma visão que sobre o mistério da noite se expande e escuta o universo de todo um instante de existência.












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